Wed, 19 Jun 2013 12:14:00 -0600
Eem 31 de maio, a posição líquida em contratos futuros de dólares das companhias era ?vendida? em 11,35 mil contratos.
As empresas estão liquidando suas posições ‘vendidas' (que apostam na queda do dólar frente ao real) e assumindo posições ‘compradas' no mercado futuro da BM&F. Em 31 de maio, a posição líquida dessas companhias era "vendida" em 11,35 mil contratos; no dia 17, passou a comprada em 12,26 mil. O movimento de reversão começou no último dia 13, e se acentuou nos últimos dois dias - hoje, com a expectativa sobre a fala do presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, o dia promete repetir a tensão.
Para Natan Blanche, sócio-fundador da Tendências Consultoria Integrada, porém, não há uma corrida desenfreada, nem especulação. "A reversão é natural. A forte desvalorização cambial já deixou machucadas pelo caminho muitas empresas. Ninguém esperava por isso. Agora, elas acordaram. Mas todas as que têm passivos em dólar vão mostrar, nos próximos balanços, os prejuízos dessa alta. É inevitável, principalmente no caso das grandes e médias empresas brasileiras, pois a maioria tem obrigações em dólares", diz. Somente em maio, a desvalorização do real chegou a 7%.
O movimento em direção à proteção cambial, porém, não é especulativo ou exagerado, diz o especialista. "Monitoro as posições em aberto dos contratos diariamente, e posso dizer que nenhuma luz vermelha se acendeu." Há, na sua opinião, duas explicações para a falta de apetite por mais hedge nesse momento: de um lado, os investidores estrangeiros continuam afastados do mercado, mesmo após o fim do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 1% que recaía sobre posições vendidas decretada pelo governo na semana passada.
"O movimento é tipicamente de ‘fly to quality'. A proteção que esses investidores querem, hoje, é em dólar - em segundo lugar, em euros -, não em reais", diz. Para comprovar sua hipótese, Blanche diz que não está havendo arbitragem de taxas de juros - conhecido como "carry trade", quando investidores trazem dólares aqui para aproveitar os juros altos. "O cupom cambial (juros em dólares pagos nesses contratos) está em 1,40%. Não há demanda", diz.
Outro motivo, segundo ele, é que os especuladores podem estar achando que a alta embutida na cotação atual do dólar já carrega um "prêmio" considerável. A Tendências, por exemplo, continua prevendo que a moeda termine o ano em R$ 2,10 - a mesma média das previsões do último boletim Focus do BC. Ou seja, a alta atual seria revertida até o final do ano.
"O Banco Central está fornecendo hedge de curto prazo ao mercado com os sucessivos leilões de swaps, e está conseguindo evitar o excesso de volatilidade. Mas nada que faça nesse momento vai ter força suficiente para vencer o movimento global contra as moedas de países emergentes", diz. Ontem, o BC dobrou a oferta de swaps, para mais de US$ 4 bilhões, em prazos curtos - 30, 60 e 90 dias . "Mas não está havendo venda líquida de dólares".
Sidnei Nehme, diretor executivo da NGO Corretora, acredita que a escalada por proteção foi precipitada. "Foi consequência da fala do diretor de política monetária do BC, Aldo Mendes, na segunda-feira, que disse que o dólar entre R$ 2,10 e R$ 2,15 estava na zona de conforto". Para Nehme, as empresas que estavam em ‘stand by', esperando até hoje para ver o que sairia do Fed antes de tomar uma posição, decidiram se proteger. "Muitas não fazem apenas proteção contra passivos comercias, mas também (caso das filiais de multinacionais) contra depreciação do patrimônio", lembra.
João Paulo Corrêa, gerente de câmbio da Corretora Correparti, do Paraná, também não vê um movimento especulativo com o dólar neste momento.
Especializado em atender clientes exportadores de commodities, diz que é comum que as companhias estabeleçam um patamar e um preço (por exemplo, R$ 2,30 em maio) para disparar ordens de hedge de valores predeterminados, acima de R$ 5 milhões. "Depois que elas já sabem os preços de venda da próxima safra, fazem as contas, e, se sobrar dinheiro, fazem hedge em contratos futuros de dólar", explica.Para Corrêa, porém, o BC deveria pensar em começar a vender dólar a vista. "Os swaps não estão adiantando muito. E, sem IOF de 1%, as portas para especulação ficaram abertas, então isso pode começar a acontecer em breve, e o BC tem que estar preparado".
Em 2008, após o estopim da crise financeira internacional com a quebra do banco americano de investimentos Lehman Brothers, o excesso de confiança na queda ‘ad infinitum' das cotações do dólar no Brasil levou duas grandes empresas não-financeiras - Sadia e Aracruz - a quebrarem devido a apostas exageradas nos mercados de derivativos cambiais.